TEVE MARCO CIVIL, SIM!

Por Lucas Sonda

A recente aprovação, na Câmara dos Deputados, do Marco Civil da Internet (na íntegra aqui), repercutiu rápida e veementemente na própria rede. Tanto nos meses que precederam a votação, quanto posteriormente, com a aprovação e encaminhamento ao Senado, pudemos observar posições favoráveis – oriundas, principalmente, de artistas, jornalistas, e entusiastas de um “Constituição” para internet – e também repúdio, encabeçado por empresas provedoras do serviço e organizações como os AnonymousBR. 



Particularmente, ao pesquisar e ler sobre o assunto, ficou-me bastante claro que era necessário botar em pauta uma série de normas, direitos e deveres para os usuários brasileiros da internet, sem que isso significasse, de fato, censura ou vigilância, como faz querer acreditar o Grupo Anonymous Brasil (aqui).


Esse fantasma da censura e da vigilância é evocado sempre que há a discussão para se regular meios de comunicação, como se a liberdade de expressão e privacidade não pudessem ser resguardados, de forma alguma, em meio à delimitação de direitos e deveres dos usuários. É o mesmo que acontece quando se aborda a questão de regulação da imprensa: um terrorismo intelectual ao estilo de “comunistas comem criancinhas”. Calma lá, gente, nem tudo são rosas muito menos espinhos! Dá pra dialogar e chegar a resultados coerentes, como demonstra as resoluções do próprio Marco Civil aprovado agora pelo Congresso, que consideram, SIM!, a privacidade do cidadão e sua opinião.

Tendo o Deputado Alessandro Molon (PT-RJ) como relator do projeto, o PMDB (especialmente na figura do Deputado Eduardo Cunha) fez concessões para a aprovação do texto, que considerou, ainda, ajustes propostos e defendidos por partidos como o PSOL. Essa união política gerou um enriquecimento enorme para a versão final do Marco, que segue para votação no Senado e, por conseguinte, para sanção presidencial.


Vejamos, portanto, resumidamente, o que significou esse primeiro passo para a oficialização da Constituição da Internet. O texto resistiu ao lobby das provedoras de banda larga, manteve a neutralidade, garantiu o recebimento do pacote de velocidade contratado, e ainda colocou sob a responsabilidade da justiça brasileira dados que antes encontravam-se, pura e simplesmente, fora de jurisdição. Como se não bastasse, cidadãos que se sentirem lesados por conteúdos postados na rede poderão acionar a justiça e, se provado crime, retirar o material da rede. Em casos de exposição sexual indevida, o indivíduo possuirá cobertura ainda maior do Marco Civil, que, mediante pedido da vítima, possibilitará a remoção imediata das fotos e/ou vídeos postados sem autorização. Chegou ao fim a sensação de impunidade que as “vinganças pornôs” causavam em pessoas mal-intencionadas, não acham? Também cria precedentes para se tipificar com mais exatidão crimes virtuais, seus agentes e método de investigação.

Não nos deixemos levar pelo medo, até agora irracional, que prejudica o debate acerca da regulação da rede. O Marco Civil da Internet é, de forma clara, um avanço jurídico e social que beneficia diretamente a sociedade brasileira e seus componentes.

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Adendo 

Criador da WWW elogia projeto brasileiro do Marco Civil (aqui).

Para quem tiver interesse de saber os pormenores do Marco Civil e não gostaria de ler o projeto todo, diversos sites disponibilizaram esquemas que demonstram as mudanças: Folha (aqui), UOL (aqui), GGN (aqui).

Na ótica contrária à aprovação o Marco Civil da Internet, também há fontes, como o discurso do Professor de Direito Rodrigo Mezzomo, da Mackenzie, aqui.

INFLUÊNCIAS (OU NÃO) DE KARL MARX E FRIEDRICH ENGELS

Por Gabriel Barbosa Rossi

É sempre curioso descobrir ou compreender quais são as leituras que marcaram determinados pensadores, escritores ou artistas em geral. Partindo desse pressuposto, gostaria de tratar do assunto trazendo à tona o pensamento de dois grandes pensadores da História da humanidade: Marx e Engels. Entre os que mais influenciaram Marx e Engels está Moses Hess. Apesar de sua influência ter sido fundamental para os anos iniciais da dita “conversão”, suas ideias foram deixadas de lado rapidamente. Até o momento da conversão de Marx ao socialismo, não existia nenhuma escola que o havia influenciado de forma direta (inclusive, é preciso ressaltar que as escolas antigas servem como modelo da crítica marxista).

A antiga escola alemã não fazia parte nenhuma do ideário socialista de Marx – ideário esse que mais tarde se tornaria conhecido pela alcunha “marxismo”. Por esse motivo, é certo dizer que Marx e Engels baseavam-se na história de seu tempo, nas realidades sociais inglesas e francesas vindas da Revolução Francesa e da Revolução Industrial, onde serviram como modelo para a construção de um pensamento social baseado nos antagonismos presentes nas lutas de classe vindas desses dois períodos históricos.

Não existia, de fato, uma esquerda socialista/comunista antes do marxismo. As escolas se baseavam em colaborações entre si e deixavam de lado os verdadeiros antagonismos da luta de classes onde, por exemplo, duas ideologias – como o socialismo e o liberalismo – se uniam para combater juntas a propriedade fundiária feudal. Na França e na Inglaterra, a ideologia que permeava a intelectualidade afirmava de forma romântica que o problema da pobreza das massas podia ser evitado através de um planejamento do governo e por meio de reformas sociais – barrando, dessa forma, o completo desenvolvimento do capitalismo (simbolizado pelo socialismo de Estado, nesse caso).

O processo supracitado indica que a antiga escola era conservadora e de cunho até mesmo liberal, pois defendia a intervenção do Estado no terreno econômico. O antigo socialismo (antes de Marx) é marcado pela especulação filosófica – por mais teoria e menos prática -, e é isso que difere o marxismo dos outros tipos de “socialismos”. O marxismo não apresenta uma teoria tão pura e romântica, mas defende a práxis. Também foi o primeiro que entendeu o lugar simbólico onde o antagonismo principal estava instaurado: na luta de classes, que foi entendida inicialmente pelos autores burgueses que viam no proletariado um problema de classe capaz de subverter a sociedade capitalista. Marx e Engels entenderam esse sistema a partir da experiência social vivida em seu tempo presente.

Assim, Marx encontrou esse sentido no proletário através da busca de uma força que mostrasse negação contra a sociedade existente. O pensamento de Marx se difere de seus antecessores em três aspectos diferentes: trocou a crítica parcial à sociedade por uma crítica mais ampla, capaz de abranger aspectos econômicos e políticos que funcionam como elementos determinantes da própria sociedade; inseriu o socialismo numa estrutura histórica de evolução, que no caso contextualiza todos os aspectos históricos das rupturas – a transição do feudalismo para o capitalismo, as manufaturas e todas as lutas de classes na história da humanidade (essa afirmação singular dá início ao manifesto comunista); e por último, o proletariado como portador da mudança social e a revolução como disparadora dessa mudança. Assim, o socialismo deixa de ser utópico e se torna científico.

O pré-socialismo marxiano foi muito criticado desde então. No entanto, não se pode dizer que a crítica a esse socialismo teve, de fato, um papel importante na formação do pensamento de Marx. É perceptível que a crítica o ajudou a amadurecer o pensamento e, por vezes, até a causar algumas polêmicas. Contudo, não passou de uma crítica política que não se encaixou no pensamento teórico.

No tempo em que viveram Marx e Engels, as bases para o pensamento do socialismo científico já haviam sido postas. Assim, tudo que pudesse ser apreendido do pensamento pré-marxiano foi devidamente incorporado.


Originalmente postado em Causas Perdidas.

O DOM CORLEONE BRASILEIRO

Por Willy Molhado

Taciturno, discreto e muitas vezes esquecido, o presidente licenciado do PMDB e vice-presidente do Brasil, Michel Temer, é, talvez, o homem mais poderoso do mundo político brasileiro. Versão evoluída do tresloucado e ex-principal nome da sigla, senador José Sarney, Temer veste a 10 na articulação e jamais sujou as mãos.

Michel Temer é um senhor de 74 anos doutor em Direito. Ele é considerado um dos maiores constitucionalistas do país, autor de diversos livros e respeitado no mundo jurídico. Ele iniciou sua carreira política no Poder Executivo, atuando ora como procurador jurídico e depois como secretário e outras denominações administrativas. Depois, resolveu candidatar-se e cumpriu seis mandatos na Câmara dos Deputados, que presidiu em três oportunidades. 

Um literal gentleman, Temer voltou à mídia recentemente em decorrência dos atritos entre o seu partido e o PT de Lula e Dilma. O PMDB, conhecido por se prostituir para o mais forte e ser insaciável na hora de garantir grandes postos de comando para seus membros, certamente deve ter exigido mais do que o demais e o atrito ocorreu, fazendo com que Dilma perdesse os cabelos da periquita de preocupação. A presidenta sabe que a balança, historicamente, pesa a favor do PMDB. Se perder o apoio, o que ainda pode acontecer, o PT não vence as eleições.

Os próprios membros do PMDB comparam Temer a um mafioso. Rapino, trabalha somente com grandes negócios e como o protocolo do gênero manda, jamais suja as mãos. Sarney era estilo coronel nordestino, de mandar matar, torturar, chupar sangue de cobra, mandar e desmandar da maneira que entendia. O comportamento chamava muita atenção e hoje ele é, ao lado de Maluf, o político mais odiado do país – que ainda o elege. Temer é astuto e trabalha nos bastidores, na articulação, nas alianças e no que realmente importa para esses caras: o poder.

Mesmo com a revolta dos deputadinhos liderados pelo grande bandido Eduardo Cunha, o vice-presidente dificilmente mudará de ideia e manterá o apoio à Dilma. A revolta das crianças é em razão da demora na reforma ministerial (quero cargo, titia Dilma) e sobre a não liberação das emendas, cujo dinheiro tem sido usado com fins eleitoreiros pela presidenta – mesma intenção das crianças na Câmara. Ano eleitoral é assim: se ficar o PMDB pega, se correr o PMDB come. 

É claro que a presidência do partido aumentou o poder de Temer, que tem um paranaense ex-deputado e milionário da barra de cereal Nutry, Rodrigo Rocha Loures, cuidando de seu gabinete. O PMDB é o maior partido brasileiro em quase todos os aspectos e todo esse musculatura agregada transformam-no em praticamente um fisiculturista político. 

Se os ventos mudarem e o PMDB largar o PT (aos alienados dirão que o PT é o tubarão e eles são a rêmora, pensem bem), teremos uma nova cara mandando no Brasil, ou melhor, subcomandando, porque quem manda é o PMDB. 

Dilma, eu já falei e repito. Só no casamento da minha filha que concedo favores.

UFSC E DISCURSOS troll: ATÉ QUANDO NÃO SABEREMOS ARGUMENTAR VALIDAMENTE?


Pois bem, minha pretensão para meu terceiro texto ao Regência Coletiva era lidar com a literatura. Como sempre, cá estava eu, na última hora, tentando bolar algum assunto que aguçasse minha vontade de escrever e, consequentemente, a de seja lá quem for que lerá isso. Havia escolhido um tópico relacionado à mudança de padrão da literatura brasileira ao final do século XX, mas, as forças da casualidade obrigam-me a escrever sobre outro assunto. Na terça-feira, 25 de Março desse ano, a Universidade Federal de Santa Catarina foi palco, por falta de expressão menos clichê, de um embate entre forças militares/federais e docentes/discentes da Universidade. Como tendência, tento não me manifestar muito sobre assuntos que desconheço relativamente, contudo, dessa vez não foi possível evitar discutir o assunto. Em partes, devo agradecer a uma peculiar espécie de sujeito da contemporaneidade: o famoso troll.

Antes de adentrar o tema em si, devo fazer menção ao que vem ocorrendo nos últimos dias, relacionado ao assunto: a maravilhosa e tão sensata gama de excelentíssimos senhores, pautados em um conteúdo embasado teoricamente por vozes das mais estimadas forças. É incrível como, dado um assunto de grande interesse político, a maioria das pessoas se julga dona da verdade, voz unívoca e que SÓ pode estar dizendo algo da mais correta retidão e certeza. Quando algum discurso envolve política, todos julgam entender absolutamente bem as contingências relacionadas ao tema; estudaram Direito, Filosofia, Sociologia e as demais áreas aptas à discussão sobre um assunto como embates entre forças de autoridade e estudantes. É aí que entra nosso amigo troll; seja ele de esquerda ou de direita, abastado intelectual e/ou financeiramente ou apenas um ser que tem vontade e acesso à internet, o troll atua em meio à máscara da virtualidade, com o intuito de, pura e simplesmente, incomodar.

Tomemos o caso da UFSC como exemplo: independente do posicionamento meu, seu ou de qualquer um, vejamos alguns dados e argumentos cuja refutação é, primariamente, difícil. Um dos argumentos pró-estudantis mais usados acerca da ação policial no campus da UFSC refere-se à ação “indevida” da polícia em território federal universitário. Para isso, menciona-se muito a lei de Autonomia Universitária, que garante direitos às instituições federais de ensino superior (ver a lei como um todo aqui). Segundo alguns discursos, essa lei garante que a polícia não tem jurisdição sobre o território da Universidade Federal e, portanto, a ação policial é indevida desde o princípio. 

Em argumento opositor, surgiu um texto jurídico deveras interessante que comenta o caso da USP em 2011. O texto “Atuação da polícia militar em campi de universidades federais” (disponível aqui) faz um apanhado legal sobre qual é a jurisdição e atuação policial em território universitário. Vejamos algumas considerações pertinentes dos textos.

Primeiramente, no texto publicado pela Jusmilitaris, vê-se que
Importante frisar, desde já, que o território ocupado pela Universidade Federal não é território federal, como muitos dizem, sobretudo os que lá estudam. 
Os territórios federais são descentralizações administrativo-territoriais da União, constituindo uma autarquia, nos termo do art. 18, § 2º da CF. 
No Brasil não existem mais territórios federais. Até 1988, com o advento da Constituição, existiam três, quais sejam: Roraima, Amapá e Fernando de Noronha.  
As ruas das Universidades Federais são ruas públicas.
Logo, sim, é errônea a concepção de que a Universidade Federal tem total controle de seu território. Na prática, não é assim. Como bem explicitado pelo texto, não existem mais territórios federais no Brasil, portanto, uma universidade não tem o direito de negar acesso ao seu campus, bem como proibir a entrada de quaisquer sujeitos nele. Assim, aqueles que querem proteger os estudantes alegando que a polícia não tinha o direito de adentrar a UFSC, acabam por cometer uma falácia. O artigo da Jusmilitaris, assim sendo, passou a ser uma das defesas maiores do lado pró-força policial. Contudo, como qualquer questão relacionada à linguagem, omite-se algumas menções do texto.

O artigo comenta como as ruas de universidades federais são vias públicas e, portanto, pertencem ao Estado como um todo. Desse modo, carecem de policiamento ostensivo e seria função da polícia militar fornecer esse policiamento. Repito, com efeito enfático, que é função da polícia MILITAR a ronda em vias públicas em território universitário. Aqui algumas concepções dadas por aqueles que apoiam a ação policial caem por terra: não é dever da polícia federal proteger a Universidade Federal e, mesmo que seja da alçada dessa o combate ao narcotráfico, de modo algum podemos ser ingênuos a ponto de imaginar que policiais federais à paisana estariam combatendo o narcotráfico ao prenderem estudantes com, salvo engano, cinco cigarros de maconha. O buraco é mais embaixo nessa situação e deve, de fato, ser apurado. Ainda, encarcerar um estudante e colocá-lo em, supostamente, viatura não identificada da polícia é ação opressiva em demasia. Assim, julgo que o próprio texto que protege a ação policial em universidades federais acaba por dar motivos para que revejamos essa mesma ação. 

Não obstante, a ação policial se restringe às vias públicas da Universidade, pois, como a Lei de Autonomia Universitária expõe, "Art. 207 - As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão". Autonomia patrimonial é, de fato, garantida por lei às universidades. Não ouvi relatos de policiais dentro dos prédios da UFSC, mas aqui entra, novamente, o nosso amigo troll. O fato de a polícia federal e/ou militar não ter agido dentro dos prédios da universidade não lhe garante o direito de oprimir ou agir com violência contra a população. Não é porque a polícia ficou em via pública que qualquer ação dela é justificada. Mas o troll faz questão de assim expor os eventos da terça-feira. Para ele, contanto que os estudantes estivessem em via pública, a porradaria poderia comer solta. Manipula-se o texto jurídico, portanto. Cito, novamente, o artigo da Jusmilitaris, quando termina o texto com “por fim, o militar em serviço poderá cometer normalmente crimes militares quanto estiver atuando dentro dos campi das Universidades Federais ou Estaduais”, ou seja, embora tenha direito de agir dentro do campus, a força policia de modo algum tem direito a cometer crimes, oprimir ou agir indevidamente de qualquer modo em território universitário federal.

A partir de então, outros comentários horrendos passam a acontecer em redes sociais, pautados no antigo sistema do ad hominem e da ofensa descontextualizada. Aqueles que apoiam a polícia julgam os estudantes, como um todo, de “maconheiros comunistas” e, portanto, merecedores de surra. Oras, mesmo se isso fosse verdade, vê-se a pequenez e leviandade desse tipo de comentário, quando se julga que determinado indivíduo deve apanhar e/ou ser oprimido pelo simples fato de ser usuário de drogas ou de ter determinada tendência política. Exagera-se o posicionamento comumente de esquerda dos estudantes que entraram em confronto com policiais, para que esses sejam “monstros comunistas”, em claro ataque ao indivíduo, não ao argumento dele. Aos mais sapientes, argumentação pífia e digna de pequenas risadas. Schopenhauer, em um texto no qual expõe 38 meios de vencer qualquer discussão, explica a ação troll de considerar como comunistas e maconheiros os estudantes que se opuseram à polícia. As duas primeiras proposições do filósofo são transcritas:
Nº 1. Leve a proposição do seu oponente além dos seus limites naturais; exagere-a. Quanto mais geral a declaração do seu oponente se torna, mais objeções você pode encontrar contra ela. Quanto mais restritas as suas próprias proposições permanecem, mais fáceis elas são de defender.
Nº 2. Use significados diferentes das palavras do seu oponente para refutar a argumentação dele. Exemplo: a pessoa A diz: “Você não entende os mistérios da filosofia de Kant”. A pessoa B replica: “Ah, se é de mistérios que estamos falando, não tenho como participar dessa conversa”.
Vejam como é esse, claramente, o caso do argumento troll: ao invés de analisar o argumento dos estudantes, chama-os de comunistas devido a suas tendências de esquerda, em claro exagero e modificação do significado inicial do termo esquerda. Ainda, ele causa desvio no foco de atuação, uma vez que agora é função do estudante defender-se da acusação de comunista, bem como da acusação de “maconheiro”, antes de voltar a discutir o ponto central, que é a violência da ação policial na UFSC. Ainda, faço comentário que considero fulcral à situação e que anda passando despercebido em discussões, via de regra, nas redes sociais, sobre o tema. Ser usuário ou não de drogas EM MOMENTO ALGUM invalida o argumento de determinado sujeito. Mais que isso, a lei 11.343/2006, embora ambígua em suas proposições (há aqueles que defendem que ela descriminalizou o uso de drogas em quantias pessoas, como também há aqueles que defendem que a pena ainda existe. Ver a lei aqui e a dubiedade de sua interpretação aqui), modifica a pena carcerária do usuário de drogas e sugere penas alternativas, bem como a reinserção do usuário no convívio social. Nietzsche já demonstrava em Humano, demasiado Humano a falácia na relação lógica entre belo -> correto -> verdadeiro, logo, não consigo entender como há aqueles que defendem a violência baseados no suposto fato de que os estudantes são usuários de drogas. Não obstante, mesmo que todos lá o sejam (fato que me parece bem questionável, considerando a quantia de pessoas envolvidas), que diferença há no argumento de opressão policial, se o indivíduo que o faz é ou não usuário de entorpecentes? Exagera-se a questão, endemoniza-se o corpo docente/discente da UFSC e o troll sai sorrindo com sua falaciosa demonstração de poder.

Antes de abraçar a causa estudantil tal qual um Cruzado em batalha, comento que há exageros em ambos os lados, e esses devem ser analisados. Muita dramaticidade anda sendo dada ao evento. Muito se comenta sobre o fato de o confronto ter ocorrido próximo ao CDI (Centro de Desenvolvimento Infantil) da UFSC, em horário próximo ao da saída de crianças. Sim, é errado envolver crianças no confronto, mas valer-se desse argumento é endemonizar, também, as forças policiais. Nada disso é deliberado, e um confronto não tem local ou horário para acontecer. Logo, um tanto quando dúbio é o comentário relacionado às crianças. Por ser altamente apelativo, considero desnecessário à questão, que deve ater-se à violência, tão somente. Mesma posição tenho com a destruição de viaturas policiais. Sim, é errado e criminoso. Qualquer indivíduo que, durante o confronto, tenha causado mal a outro ser humano deve ser responsabilizado por suas ações e legalmente julgado. Policiais, estudantes, professores ou quaisquer outras pessoas que estavam lá.

Porém, outro comentário devo fazer. Há aqueles que consideram a destruição de patrimônio público como prejudicial e sinal da animalidade dos manifestantes. Pois bem, peço a esses para me explicarem quais são as regras sociais de um confronto/manifestação. Até a última vez que eu tenha analisado a questão, nada vi sobre existir uma “etiqueta de comportamento do manifestante moderno”. Condeno a ação criminosa de que lado for, considero perigosa a destruição de patrimônio público, contudo, compreendo que, quando acuada e oprimida, uma massa populacional qualquer apelará para quaisquer meios de reagir. Isso significa, também, e infelizmente, a destruição e ação violenta. Mas o troll usa das viaturas e carros destruídos como argumento para dizer que os manifestantes eram “animais maconheiros comunistas”. Espertinho ele, não?

Termino meu mais novo gigante texto com o link para a nota de repúdio feita pela UFSC (aqui). Finalmente, comento que, nesse texto, tenho o objetivo de discutir a argumentação pífia e exagerada de inúmeras pessoas, não o fato ocorrido na UFSC em si. A priori, sou contrário a qualquer ação violenta e considero descabido o uso de balas de borracha e bombas de efeito moral no campus da Universidade. A ação poderia ter sido diferente, em inúmeros sentidos. Defendo o direito da polícia militar de adentrar o campus, mas questiono os motivos para a polícia federal ter investigado de maneira tão esgueira a universidade. No entanto, não defendo os trolls do lado estudantil também, que bradam aos sete ventos manifestos revolucionários sem tomarem nota da necessidade de discussão parcimoniosa e adequada entre ambos os lados. Reitero que a destruição ou o fato de alguns estudantes usarem maconha não são, em qualquer momento, argumentos suficientes para validar ação policial, bem como repito que o texto da Jusmilitaris é importante, mas não garante imunidade à polícia. Tenho rechaço ao extremismo, seja ele qual for, e espero poder ver menos a ação de trolls nessas discussões, pois ela está grandiosa, nesse momento.


ORIGENS DO LIBERALISMO NO BRASIL

Por Roger Costa

Ainda durante o Império, a ideia de que o liberalismo representaria o progresso e a modernidade para o país – sob teses de direito natural, de que os homens não se confundem com as coisas suscetíveis à alienação, e de que a liberdade é apanágio de todo ser humano, e não uma concessão governamental – surge concomitante à escravidão. Haveria de ter existido contradição maior, ou deveríamos lembrar que o negro, naquele contexto, passado, não era considerado ser humano? Bem, meus professores me diriam que não devo julgar os homens de ontem com meus olhos de hoje – e eu absolutamente concordo com isso –, mas como explicar o fato de que o argumento maior do liberalismo, hoje, é o de que as pessoas simplesmente não são iguais, e que a desigualdade se justifica pela meritocracia? Diga-me, leitor, pois não entendo.

Além disso, ao mesmo tempo em que defendiam por princípio as liberdades individuais, aceitavam sem maiores constrangimentos o exercício regular do poder pessoal (ou "moderador", como queira) do imperador. Qual "liberalismo absolutista" teria sido este, o do certo Pedro, que tendo vindo à colônia em fuga com os seus, foi-se também às pressas fugido da colônia, levando consigo todo o conteúdo dos cofres do quase-Brasil? Bem, talvez ele fosse livre também para isso.

Nas palavras de Fábio Konder Comparato, em prefácio à compilação de Raymundo Faoro: "Tratava-se, em suma, por parte de um liberal de quatro costados, de aceitar na prática o regime inveterado da autocracia, bem expresso na fórmula cunhada pelo Visconde de Itaboraí, e que refletia fielmente a realidade política: 'o rei reina, governa e administra'". E, claro, o povo é "livre". Tragicomédia brasileira.

Com a mudança de regime, quando experimentamos a ditadura republicana do positivismo comtiano, éramos os mais "atrasados", neste quesito político, de todo o continente. E a tal mudança, que se lembre, não veio pelas virtudes próprias da Marianne  francesa, a República, mas pelo fastio que a casa de Bragança gerava nas classes dirigentes – únicas com alguma participação na vida política do país. O Império já proporcionara, então, aos latifundiários tudo o que dele esperavam: unidade territorial e manutenção da escravatura (até seu completo esgotamento) e, por último mas talvez mais importante, manteve o restante da população sem participação qualquer na política.

Em 15 de novembro de 1889, como primeiramente observou Alberto Torres, foi deveras institucionalizado no Brasil o coronelismo estadual. Sob o véu republicano despontou, desde logo, a realidade federativa, asseguradora da autonomia local aos potentados estaduais. O tal embuste privatista e hegemonizador dos senhores idealizado por Adam Smith acariciava aos que o voto censitário contemplava, independentemente das suas divisões em grupos rivais – fossem quais fossem. 

Por força de inércia, continuamos a manter, inda hoje, em nossas Constituições, a denominação do país como República Federativa. Nos primeiros tempos, como adjetivo a palavra teve mais significado do que como substantivo. Só que o caminho político aqui percorrido foi inverso do trilhado pelos norte-americanos, inventores do sistema – não que os sugiramos como "modelo".


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REFERÊNCIAS

FAORO, Raymundo. A República Inacabada. Organização e prefácio de Fábio Konder Comparato. São Paulo: Globo, 2007.

FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: EdUSP, 2002.

GUIMARÃES, L. M. P.; PRADO, M. E. da C. O Liberalismo no Brasil Imperial: origens, conceitos e prática. São Paulo: Revan, 2001.


A IMPORTÂNCIA DAS GUERRAS PARA O MUNDO

Por Pedro Sarolli

Assim como as doenças e epidemias, as guerras são históricas e grandes controladoras populacionais. Sentimentalismos e direitos humanos à parte, é preciso entender o quão relevante – apesar de muitas vezes injustificado – os conflitos armados são para o que somos hoje. 

Primeiro de tudo, é preciso falar sobre o avanço tecnológico. Nada mais eficiente do que um homem trabalhando à espreita do medo, a mando da fome ou sob a eminência do controle inimigo. Os avanços tecnológicos mais notáveis ocorreram pela necessidade de matar, desde a pré-história, quando o homem precisava evoluir sua indumentária para caçar, conseguir o alimento, controlar e\ou amedrontar os inimigos e deter a soberania e poder sob determinado grupo. Passaram-se os anos e os homens evoluíram suas necessidades, sobrepujando novos territórios. Depois de um tempo, a carnificina tornou-se diplomática, quando o que se almeja é a hegemonia econômica e tecnológica. Para isso, vamos ao espaço, vamos equipar nossas Forças Armadas, vamos ter nossa moeda forte, vamos criar grupos entre os poderosos e financiar os mais pobres (...) A lista é longa. 

O conceito de que o mais forte sobrevive é a mais pura verdade e a história antiga até a pós-moderna está por aí para nos comprovar. Para tudo isso ali em cima acontecer muitas pessoas tiveram que morrer. Civis, militares, mulheres e crianças. Todos na mesma vala. Tempos de sofrimento, de miséria e de gozo para os comandantes vitoriosos e para os nacionalistas cegos por seus líderes. A guerra em si é uma grande desgraça injustificável, mas não sem total importância. 

Antes de explicar outros motivos, é preciso reconhecer outro grande aliado no controle populacional da Terra: as doenças. Varíola, peste negra, AIDS, câncer e outras enfermidades foram responsáveis e ainda são por milhões de mortes. Algumas criadas pelo homem (sim, eu acredito) e outras mantidas pelo homem (sim, eu acredito também) são mecanismos de seleção natural para evitar um contingente maior do que já existe no planeta, sendo que todos precisam comer, tomar água tratada, cagar e ter a merda tratada, ter dignidade, morar, enfim, viver e gerar ônus de diversas naturezas à sociedade, mesmo que ele contribua para sua melhora.  Não estou dizendo que os nascimentos são uma maldição, mas já há muita gente fodida no mundo e quanto mais a barca ficar cheia, mais rápido afunda. 

Agora voltando à guerra, esses tipos de conflitos, muitas vezes injustificáveis e desnecessários, ajudaram a controlar a população e o bem estar dela na atualidade. Vejamos: só na segunda guerra mundial, conflito mais sangrento já ocorrido, estima-se que morreram entre 40 e 70 milhões de pessoas. É muita gente, eu sei e lamento aos familiares a perda, mas imagina se esse pessoal continuasse vivo, se reproduzindo e cheios de necessidades? Como algum Estado poderia suportar tantas pessoas e fornecê-las os serviços básicos? Não venham com essa de que a China é uma potência. A que custo? Do suor e da neoescravidão do povo. O problema populacional é tão grave que em 1798 o economista Thomas Malthus criou a teoria populacional malthusiana, que dava uma série de ideias para que o controle de natalidade fosse firme, pois a consequência seria a fome em massa. 

Bom, quebrando tragicamente o texto, o passado é passado e voltamos ao presente. A motivação para estar falando sobre isso hoje foi a grande animosidade que paira entre Rússia e o resto do mundo, após a apropriação (aprovada pelo povo) da Crimeia. Muitos temem a guerra porque hoje em dia ela é muito mais letal. Outros já pensam “que se matem!”. O fato é que Putin agiu certo (afinal, porque os Estados Unidos pode tudo e não deixa ninguém fazer nada?), mas sua atitude pode causar um conflito armado. A pergunta que não cala é: será que a possível peleia será trágica para o mundo ou benfeitora em tempos de pobreza e fome? Só o futuro dirá.


POVEGLIA -- A ILHA DO NÃO RETORNO

Por Andreyson Jambersi

Poveglia, uma das 118 pequenas ilhas ao redor de Veneza, Itália, parece, à primeira vista, apenas mais um lugar comum, numa cidade conhecida por suas belas paisagens (e, dizem as más línguas, o mal cheiro). Porém, Poveglia esconde uma história que beira – ou mergulha que sua imaginação ou crenças permitir – o sobrenatural.

A ilha é situada ao norte da Itália, entre Veneza e o Lido na Laguna de Veneza.

Representação da localização da ilha de Poveglia com relação à Veneza.

UM POUCO DE HISTÓRIA

Poveglia foi habitada desde aproximadamente o ano de 420 D.C. De acordo com documentos que remetem à época, pessoas se abrigaram na ilha tentando escapar dos bárbaros.

Ainda na época romana, a ilha foi utilizada como depósito de cadáveres para vítimas da Peste Negra (ou Peste Bubônica) que assolou a Europa – estimativas apontam que cerca de 1/3 à metade da população europeia padeceu devido à peste (entre 25 a 75 milhões de pessoas).  

A peste atingiu Veneza em 1348 e foram criados Lazzarettos (centros de quarentena) nas ilhas que rodeiam a cidade. Dentre essas ilhas encontra-se Poveglia. Devido a um consenso entre as autoridades e o clero, os cadáveres, e mais tarde, as pessoas que apresentavam os sintomas, eram levados para serem incinerados em Poveglia. Cerca de 160.000 pessoas ainda vivas, que apresentavam os sintomas da Peste Bubônica, foram incinerados, jogados em fossas, ou apenas abandonados em Poveglia nesse período. Esse número inclui homens, mulheres e crianças. Não se sabe até que ponto a incineração ou total abandono de pessoas ainda vivas é realidade, ou a partir de que ponto as histórias servem apenas para sustentar a lenda acerca do lugar.

Ilustração representando Poveglia na Idade Média.

A peste reincidiu sobre Veneza em 1462, 1485, 1506, e nos períodos de 1575-1577 e 1629-1631. Acredita-se que o período entre 1629-1631 tenha sido o pior. Com uma estimativa de 80.000 mortes em apenas 17 meses.

A quantidade de incinerados foi tamanha que, estima-se, 50% do solo local, nas regiões centrais da ilha, consiste basicamente de restos humanos. Além disso, mesmo sendo um local de águas calmas, algumas vezes as correntezas locais arrastam restos de corpos calcitrados à costa mais próxima da ilha. Motivo pelo quais pescadores evitam esses lugares, tentando evitar a captura de restos humanos pelas suas redes.

Outras duas ilhas foram utilizadas como locais de quarentena nessa época, Lazzaretto Vecchio e Lazzaretto Nuovo. Essas ilhas foram alvo de estudo e exploração por arqueólogos, enquanto Poveglia, ainda nos dias de hoje, está cercada de mistérios, permanecendo abandonada e inexplorada em sua maior parte.

Escavações em Lazzaretto Vecchio apresentaram valas preenchidas com cadáveres, alguns com pedras na boca, sinal que os medievais e renascentistas acreditavam que se tratavam de vampiros. Tal fato serviu como reforço às lendas acerca de Poveglia.




No início do século XVIII, aproximadamente, a população que ainda residia em Poveglia deixou a ilha, e ela se tornou praticamente inabitada. Já no final do século XVIII, aproveitando-se das lendas locais acerca de fantasmas que habitava a ilha, Napoleão Bonaparte utilizou-a como depósito de armas e munições.


No início do século XX, mais especificamente em 1922, as construções existentes foram convertidas em asilo para velhos. Em 1968 o asilo foi fechado e visitas posteriores ao seu funcionamento na ilha indicaram não se tratar apenas de um asilo comum, e sim de um hospital para doentes mentais. Talvez os novos fatos e o mistério do que acontecia realmente na ilha tenham contribuído diretamente para as estórias que se seguiram. Surge então uma nova lenda: um doutor que trabalhava no manicômio cometeu todos os tipos de atrocidades com seus pacientes, incluindo torturar, mutilar, matar e até mesmo comê-los antes de enlouquecer e se suicidar, saltando do torre do sino – ou sendo jogado por pacientes que se rebelaram contra seu comportamento, dependendo da versão contada. Acreditam alguns que ele tenha sobrevivido à queda, mas que foi estrangulado por um nevoeiro que surgiu do chão.

Outra variante da estória acima indica que os médicos locais realizavam experimentos dos mais variados com seus pacientes, e que um desses médicos enlouqueceu e saltou da torre do sino. Lendas locais alegam ainda que, apesar do sino ter sido removido décadas atrás, ainda é possível ouvir o mesmo.














Algumas pessoas dizem que, nos dias de hoje, os pescadores já não evitam mais as águas locais da região ao redor de Poveglia. Mas as lendas em torno do lugar continuam, principalmente, devido ao lugar continuar proibido para pessoas, e devido aos gondoleiros se recusarem a passar no lugar com turistas. Além disso, apesar de permanecer inabitada, a ilha é local de cultivo de vinhas, devido ao solo ser bastante rico, segundo os agricultores (lembra-se da composição do solo? Citada nesse texto?).










Desconheço o(s) autor(es) das fotos, mas as mesmas foram encontradas e podem ser consultadas nos seguintes links: AQUI, AQUI e AQUI.

Existem séries e documentários que citam Poveglia diretamente. A maioria com histórias tão sensacionalistas quanto as lendas locais. Os mais famosos são “Ghost Adventures” e “Scariest Places On Earth” (sendo este último mais interessante).

Seguem links para ambos no youtube, não encontrei versões legendadas, infelizmente.

Ghost Adventures (as outras partes estão nos vídeos relacionados):



Scariest Places On Eart (a outra parte está nos vídeos relacionados):



A BANALIZAÇÃO DOS CONCEITOS HISTÓRICOS -- PARTE 1 -- FASCISMO

Por Érico Caldeira

Não gosto de corrigir as pessoas sobre a maneira como elas falam ou escrevem. Acredito que as línguas se adaptam naturalmente àquilo que melhor representa uma determinada época, mas ultimamente tem sido difícil ignorar o uso completamente descabido de certos conceitos tanto nas redes sociais como fora delas. Pretendo estender esse post a uma série de publicações, mas hoje falarei especificamente sobre o uso do termo “fascismo”.

Confesso que tenho vários tipos de medo quando essa expressão aparece em uma fala. Nunca sei o que a pessoa quis dizer, mesmo por que o termo é usado em todas as situações possíveis e imagináveis. George Orwell expressou isso, ainda em 1944, de maneira sucinta (tradução livre):
"Perceber-se-á que, como é usada, a palavra ‘Fascismo’ praticamente não tem significado. Em conversas, é claro, é usada ainda mais loucamente do que na escrita. Eu a tenho ouvido sendo aplicada a fazendeiros, lojistas, Crédito Social, castigo corporal, caça à raposa, luta de touros, o Comitê de 1922, o Comitê de 1941, [Rudyard] Kipling, Gandhi, Chiang Kai-Shek, homossexualidade, transmissões de [John Boyton] Priestley, albergues de jovens, astrologia, mulheres, cachorros e sei lá mais o quê."
Preciso dizer mais algo? Sim, preciso. Alguém poderia argumentar que Orwell estava exagerando. Não estava. O termo é, ainda hoje, tão usado que parece gíria. Claro que esse não é o problema. O problema é que um termo que significa tudo também significa, essencialmente, nada. Vamos ver o que Kalina Silva (2009) tem a dizer a respeito então:
"Dá-se o nome de fascismo, ou nazi-fascismo, ao fenômeno histórico específico ocorrido no mundo europeu entre 1922 e 1945, o chamado período entre-guerras, caracterizado pela ascensão de regimes políticos totalitários que se opuseram, ao mesmo tempo, às democracias liberais e ao regime comunista soviético (também este de caráter totalitário) e cuja repercussão atingiu numerosas Nações que adotaram regimes semelhantes. Há certo consenso entre os pesquisadores de que este fenômeno tem muito a ver com a chamada sociedade de massas e de que ele deve ser situado espacialmente na Alemanha e na Itália. Essa definição espacial tem a vantagem de evitar que regimes apenas autoritários e ditatoriais situados em outras Nações sejam nomeados erroneamente de fascistas." (grifos meus) (p. 141)
E, por fim, Hobsbawm (2003):
“A grande diferença entre a direita fascista e não fascista era que o fascismo existia mobilizando massas de baixo para cima. Pertencia essencialmente à era da política democrática e popular que os reacionários tradicionais deploravam, e que os defensores do “Estado  orgânico”  tentavam contornar.  [...] Os fascistas eram os revolucionários da contrarrevolução: em sua retórica, em seu apelo aos que  se consideravam vítimas da sociedade, em sua convocação a uma total transformação da sociedade, e até mesmo em sua deliberada adaptação dos  símbolos e nomes dos revolucionários  sociais, tão óbvia no Partido Nacional  Socialista dos  Trabalhadores  de  Hitler,  com  sua bandeira  vermelha (modificada)  e  sua imediata instituição  do  Primeiro  de Maio dos  comunistas como feriado oficial em  1933.” (p. 121)
Como se pode perceber, fascismo deve ser entendido como uma terminologia muito específica, tanto em termos espaciais e temporais como no aspecto conceitual, não sendo uma expressão que possa ser incorporada em nossa fala com tanta facilidade e banalidade.

Para maiores detalhes, recomendo fortemente a leitura da Era dos Extremos (páginas 116 a 122, pelo menos). O autor, Eric Hobsbawm, explica que: 
“Autoritários ou conservadores anacrônicos [...] não tinham qualquer programa ideológico particular, além do anticomunismo e dos preconceitos tradicionais de uma classe. Podiam descobrir-se aliados à Alemanha de Hitler e a movimentos fascistas em seus países, mas só porque na conjuntura entreguerras a aliança ‘natural’ era feita por todos os setores da direita política. [...]”
“Um segundo tipo de direita produziu o que se tem chamado de ‘estatismo orgânico’, ou regimes conservadores, não tanto defendendo a ordem tradicional, mas deliberadamente recriando seus princípios como uma forma de resistir ao individualismo liberal e à ameaça do trabalhismo e do socialismo. [...]”
“Fascismo” não é uma expressão tão banal como seu uso queira fazer crer. Chega de usá-la sem pensar.

Benito Mussolini e Adolf Hitler
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REFERÊNCIAS

http://orwell.ru/library/articles/As_I_Please/english/efasc
HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
SILVA, Kalina Vanderlei. Dicionário de Conceitos Históricos. São Paulo: Contexto, 2009.

CONTOS DE UM BATERISTA QUALQUER -- CONHECENDO OS SOGROS


Comecei a namorar, mulher linda, inteligente, gosta de música, livros, filmes, tem um bom papo, de família conservadora, parceira, enfim, tudo o que um homem sempre desejou, quer dizer, tudo que eu sempre desejei, essas coisas não podem ser generalizadas.

No começo de namoro foi muito bom, ir a bares, restaurantes, shows, casa de amigos, e de repente o ultimato: “Meus pais querem te conhecer.” – ela diz com aqueles olhos cansados e provocadores, com aquele sorriso meigo e sincero, não dando muita chance para uma negativa. Sou baterista e roqueiro, tatuado, ando de moto, o típico cara que nenhum casal conservador quer ter como genro, mas minha namorada tinha me garantido que já havia preparando o terreno, que quando ia falar de mim salientava as minhas “qualidades”, e soltava de maneira discreta as informações mais assustadoras, como por exemplo: “Ai mãe, ele é bonito, inteligente e..., toca bateria numa banda de rock.” ou “Ai mãe, ele é rico, é bem sucedido e..., tem tatuagem.” e também “Ai mãe, ele tem uma casa na praia em Punta del Leste, e adora viajar para lá de..., moto.” Tirando o fato que eu não sou rico e nem tenho uma casa na praia(alguns me acham bonito), talvez o fato de eu gostar da filha deles fizesse com que eu fosse aceito, vai saber.

Então, o grande dia chegou, e seria um jantar, como os padrões da sociedade ditam. Tentei ir bem arrumado, o que é um pouco difícil quando se está chovendo e o seu meio de locomoção é uma moto de 150cc (vida de baterista não está muito fácil nos dias de hoje), e como vocês podem imaginar, chegar ensopado na primeira vez que você visita a casa da sua namorada, não é a melhor primeira impressão do mundo. Sou convidado a entrar e logo avisto o olhar de desaprovação da minha sogra, mirando nos meus sapatos encharcados, que estavam molhando o carpete da sala de estar. Percebi e muito sem jeito pedi desculpas, sem pestanejar tirei meus sapatos não lembrando que uma das minhas meias estava furada, causando ainda mais desconforto para uma situação que não estava sendo nada confortável.

Não estava sendo a melhor das apresentações, e além de ter que ser encarado por um olhar de sogra (olhar de desaprovação mesmo) deparo-me com o meu sogro sentado no sofá, lendo jornal, como se eu não existisse, e quando a minha namorada falou pra ele me cumprimentar, tudo o que ele fez foi abaixar as notícias do dia, e me encarar como se eu fosse uma presa, e foi por exatamente 5 segundos, nenhuma palavra, apenas os olhos semicerrados, seguido por um grunhido, numa tentativa pífia de  demonstrar cordialidade e dizer um olá.

A merda já estava feita, minha entrada dramática, minha sogra olhando a cada minuto pra mancha molhada no carpete, o meu sogro lendo, minha namorada me olhando com cara de abobada sentada ao meu lado no sofá, e eu escutando o barulho dos ponteiros do relógio, quando de repente, o sogrão fecha o jornal, dirige o olhar para mim e diz na mais assustadora calma que você possa imaginar: “Eu criei minha filha por exatamente 21 anos, comprei fraldas, levei pra escola, tratei com muito amor e carinho, e não quero perder ela para a sociedade, mais especificamente para um roqueiro qualquer que deve usar drogas, não leva a vida a sério e não respeita as leis do nosso governo.” Quando tentei me defender ele me cortou e continuou: “Então lhe farei algumas perguntas, e você deverá ser muito sincero para respondê-las.” Ainda meio atordoado eu disse: “Sim, senhor.”.

"A primeira pergunta: você estuda?" - disse o sogrão da sobrancelha de vilão do James Bond.

"Não senhor, mas estou guardando dinheiro para retomar meus estudos."

"Hunf, pelo menos você foi sincero. Você trabalha? Quanto você ganha?" - Perguntou de novo meu sogro.

"Trabalho sim, senhor, sou vendedor de motocicletas e ganho um salário razoável." – Respondi com uma gota de suor escorrendo pelo meu rosto.

"Está certo." - Retrucou meu sogro. "Vida na juventude é assim mesmo, agora uma última pergunta: Quais suas intenções com a minha filha?".

"Eu a amo, e gosto muito de estar com ela, e pretendo fazer dela a pessoa mais feliz e satisfeita que eu conseguir fazer."

Ele se inclinou na minha direção, focalizou com um dos olhos erguendo uma das sobrancelhas que me causavam três tipos de calafrios, encarando dentro da minha alma, por vários segundos que pareceram uma eternidade, e soltou uma gargalhada.

Depois disso não lembro muito dos detalhes, mas descobri que meus sogros são muito legais, conversamos sobre várias coisas naquela noite, comemos lasanha caseira feita pelas mãos de fada da minha sogra, e antes de ir embora meu sogro fez ainda mais uma pergunta:

"Só estou curioso com uma coisa rapaz, porque diabos você ficou batucando nas coxas da minha filha a noite inteira? Ela tem cara de tambor agora?"

Sem graça, respondi que quando fico nervoso, distraído, concentrado, assustado ou animado, começo a "tocar bateria" em qualquer lugar que esteja ao meu alcance. Ele deu mais uma gargalhada exagerada e se despediu. Levei uma bronca da minha namorada antes de ir embora porque tinha deixado as coxas dela doloridas, mas logo depois ela me beijou e disse que sabia que os seus pais tinham gostado de mim, e que apesar de tudo me saí super bem.

Seja você mesmo, é muito melhor ter pessoas te aceitando pelo que você é do que aceitando uma versão teatralizada que a sociedade espera.

ps: Eu te amo, minha linda.


EUCLIDES DA CUNHA, A GUERRA DE CANUDOS E A COMOÇÃO NACIONAL

Por Gabriel Barbosa Rossi

Euclides da cunha foi um dos maiores escritores brasileiros. Isso eu pelo menos não nego. Também teve uma visão perfeita sobre o que será tratado aqui. Canudos foi visto por seus olhos praticamente ao vivo. Enviado como jornalista para retratar o conflito sócio-religioso presente na nova república, Euclides escreve alguns artigos e cinco anos depois monta o belíssimo “Os sertões”.

Primeiramente: Antônio Vicente Mendes Maciel foi um dos maiores símbolos de luta e resistência que se tem na história do Brasil. Antônio conselheiro como conhecido, chega à canudos em 1893, de família humilde e com um abandono da esposa, toma certo gosto pela vida do sacerdócio. Chega a canudos com o discurso de que a república instaurada em 1889 é o “paraíso” anticristo, principalmente depois da desvinculação do Estado e da igreja. Logo, Antônio Conselheiro é tido como um monarquista.

Provindos de uma região completamente cercada por latifúndios e estiagem, apresentam-se os guerreiros de canudos, uma região no interior da Bahia que foi palco dessa resistência. Canudos, originalmente era uma vila ao redor da fazenda de canudos, que resumidamente é transformada em cidade e rebatizada de Belo Monte, por Conselheiro, devido ao seu crescimento, passando dos 20 mil habitantes.

Euclides apresenta Canudos, trazendo alguns aspectos como: As ordens vindas do governo como ataque, até a morte de Antonio Conselheiro [que, de fato, era contra a República e o governo]. Antônio Conselheiro predominava ideologicamente [mesmo que esse conceito não estivesse formado entre os jagunços e o resto da população] entre a comunidade de Canudos. Exemplo disso é o fato de que ele pregava sua fé na comunidade, e mostrava-se, também, extremamente humilde.

Os Sertões – Euclides da Cunha

A LUTA

Basicamente, a batalha começa como defesa da terra recém atacada pelos grandes fazendeiros da região com auxílio da igreja. Defesa de que? Quando, em 1896, durante a construção de uma nova igreja, Conselheiro pede um carregamento de madeira [carregamento este já pago], a carga por intermédio do Juiz de Juazeiro, é bloqueada. Assim, os rumores que surgem é que: “ou a madeira chega ou buscamos à força”. A partir desse rumor, de que o Conselheiro e seus jagunços invadiriam a cidade, o governo designa 104 praças do novo exército brasileiro para apaziguar a situação.
“Desfalcada a força policial aquartelada nesta capital, em virtude das diligências a que anteriormente me referi, requisitei do sr. general comandante do distrito cem praças de linha, a fim de seguirem para Juazeiro, apenas me chegasse aviso do juiz de direito aquela comarca.[...] Esse distinto oficial, chegando ao Juazeiro, combinou com aquela autoridade seguir ao encontro dos bandidos, a fim de evitar que eles invadissem a cidade.”
Assim, na primeira, expedição foi enviada uma pequena tropa com 104 soldados, comandados pelo Tenente Pires Ferreira. No dia 21 de novembro a tropa retrocedeu, atacada com facões, bacamartes e aguilhões de vaqueiro, e apavorada com os gritos dos jagunços de Antônio. Mais tarde, foram enviadas outras três tropas para que detivessem Antônio Conselheiro. A segunda expedição foi comandada pelo major Febrônio de Brito em 12 de janeiro de 1897 e continha 543 soldados, 14 oficiais e 3 médicos, saindo de Monte Santo. Como essa tropa da expedição não conhecia o terreno muito bem, foi, inesperadamente, atacada na estrada que atravessa a Serra do Cambaio. Apesar dos 415 jagunços mortos, o segundo insucesso militar provocou impacto nacional. Ou seja, desestabilizou a força do estado, já que os sertanejos, querendo ou não, estavam derrubando a força militar.

A terceira expedição acontece no dia três de fevereiro de 1897. Dessa vez, vem do Rio de Janeiro, conta com 1.300 homens e é comandada pelo Coronel Moreira César. No dia 2 de março, sem um plano tático, a tropa entrou e atacou o arraial, perdendo-se. Moreira César foi mortalmente ferido, com duas balas. Substituíram o Coronel por Pedro Nunes Tamarindo. A tropa fragmentou-se, dispersou-se e Tamarindo também foi morto, assim como José Agostinho Salomão da Rocha. A comoção, agora, era nacional! “A República estava em perigo”.

A quarta Expedição saiu no dia 5 de abril de 1897. No posto de General estava Artur Oscar. Organizaram-se em as forças dessa expedição; 4 brigadas em 2 colunas, com 4.283 soldados. Por caminhos diferentes, as duas colunas chegariam a Canudos.

A partir de agora a situação mudou. Por mais que os jagunços conhecessem as terras e a região, os exércitos fizeram um cerco em canudos. Travaram as saídas, fazendo com que os habitantes de canudos ficassem “ilhados”. Agora, a vitória do estado era iminente. A sede, fome e doenças atacavam a população, de forma que estes foram morrendo enquanto os vivos, bravamente, ainda tentavam sustentar a defesa.

Canudos cai em 5 de outubro de 1897. E “No dia 6 acabaram de destruir desmanchando-lhes as casas, 5.200, cuidadosamente contadas”.
“Antes, no amanhecer daquele dia, comissão adrede escolhida descobrira o cadáver de Antônio Conselheiro. Jazia num dos casebres anexos à latada, e foi encontrado graças à indicação de um prisioneiro.”
Morre assim Antônio Conselheiro, Morre Assim Canudos.

Canudos é um dos assuntos mais instigantes da História Brasileira. Gera bastante discussão e, de certo modo, muita revolta.


Originalmente postado em Causas Perdidas.

EDUARDO CAMPOS E MAIS UMA FRUSTRAÇÃO

Por Willy Molhado

O principal e praticamente confirmado adversário de Dilma Rousseff  para mandar no país será o cabra da peste e peessedebista Eduardo Campos.  O desconhecimento geral do povo sobre sua trajetória política pode atrair novos votos, afinal, estamos carentes de novidades. O problema é que quem o conhece sabe que ele é mais um nordestino safado do que potencial chefe do Executivo, quiçá pior que Collor. 

Há pouco tempo a “doutora Dilma”, como o jornalista Elio Gaspari gosta de referenciá-la,  teve o principal alvo decretado pelo menos na fase inicial das prerrogativas eleitorais, em uma espécie de umbral pré-eleições. Para o PT, o momento é bater em Campos, que também mudou a postura e tem metralhado a Margaret Thatcher às avessas e tupiniquim, Dilma Rousseff.

"A verdade é que a presidenta não soube tocar o Brasil do jeito que o Brasil precisava ser tocado, com respeito ao povo organizado [...], com a capacidade de ouvir e somar forças, ter a paciência que um líder tem que ter, a sabedoria de aprender com o povo. Quem acha que sabe de tudo não sabe é de nada.", disse Campos recentemente, onde começou a citar nominalmente Dilma nas críticas. 

Gostaram da emoção na fala dele? Esse discurso blasé de ouvir para melhorarmos todos juntos é o mais picareta possível, principalmente para um povo que morre de sede e fome como em suas terras. Aliás, Campos não tem nada que se vangloriar em sua trajetória. Foi um deputado filhinho de papai e só entrou no mundo depois que seu avô, Miguel Arraes, o tornou chefe de gabinete. Ali ele começou a fazer esquema para acertar sua eleição e certamente tem um passado corrompido, como infelizmente todos neste meio têm. 

Embora Eduardo se ache pronto para a eleição (o que nenhum dos pré-candidatos até agora é, nem a “doutora”) a rebatida de Dilma, que em breve os organizadores da campanha soltarão, será como utilizar uma bala de canhão para matar um passarinho. “Como quer mandar no País se nem tirar do vermelho as contas do seu Pernambuco você conseguiu, ainda que o Estado é um dos que mais recebem recursos do governo federal”. Já escuto palavras semelhantes pairarem sobre meu pensamento. Isso já bastaria.  

A única alavancada e momento de destaque nacional foi quando Campos foi ministro do PT, em 2004 e até foi bem. O bom filho não torna a casa no nordeste, migra geralmente para grandes centros e além de tudo, taca fogo nela. Essa é a linha dele e a dos irmãos metralhas brasileiros (Ciro e Cid Gomes), dois grandes vigaristas que criaram Eduardo depois da morte do avô em laboratório e, com a metilamina escassa no mercado, a cria virou contra o criador e os expulsou para o PROS após assumir a presidência da sigla.

De bebê chorão e ranhento da cor da palma do deserto de Pernambuco, o manhoso Campos vem ai para incomodar, mas não passa de mais um mototaxista na Ponte da Amizade, em Foz do Iguaçu. Viaja o dia inteiro, mas o conteúdo que gera é pequeno e o passado não existe. Mesmo essas frequentes cabeçadas no céu da boca que ele gosta de receber do empresariado, que está carente e desesperado, não melhoram a situação, que só deixará de ser um fracasso se a ira da população contra Dilma despertar e, entre um tiro na cabeça com Aécio e um cacto cravado no esfíncter com Campos e Marina, é melhor procurar uma almofadinha confortável e assistir. 


UM SAGRADO BRINDE AO LEITEIRO

Por Alceu Sperança

Os produtores de leite no Brasil estão sempre à beira de um ataque de nervos. A coisa vai mal. Mas há produtores de bebidas felizes da vida: com a crise, o pessoal deu para entornar até a última gota de uísque e, além dos males do fígado, alimenta a poderosa indústria do alcoolismo.

“Mundo, vasto mundo”, dizia Drummond, mais em busca de uma solução que de rimas. Mundo, injusto mundo: quem produz leite beira a falência, quem produz a cirrose engarrafada enriquece cada vez mais. Logo no início da crise, em 2009, a escocesa Macallan Distillery iniciou a construção de quatro obras simultâneas. São quatro edifícios enfeixados num projeto de US$ 80 milhões, três deles grandes depósitos para guardar mais de 100 mil barris de uísque.

A empresa já era grande e seus produtos recebiam encomendas de todo o mundo, mas o consumo disparou e o investimento foi aplicado para ampliar a produção. “Não podemos atender a demanda do jeito que estamos indo, especialmente na Índia e China”, dizia o gerente da destilaria, Alexander Tweedie. Na China e na Índia as pessoas estão ganhando mais dinheiro e incorporando a seus costumes os meios ocidentais de se estressar. Cabeça arruinada pela competição desumana, toma uns goles e segura as pontas até o dia seguinte.   

Assim, a decadente indústria do uísque escocês, que estava em baixa, com a crise deu um salto espantoso. As vendas subiram 75% na China; 36% na Índia; 27% na Europa; e 6% na América do Norte. Enquanto isso, no Brasil, em 2013 o valor pago pelo litro de leite chegou a cair 30% nas negociações entre produtores e comerciantes, mas é claro que você não sentiu toda essa queda de preços ao comprar o leitinho das crianças...

Para esquecer o leite derramado, que venha o uísque nosso de cada gole. O Brasil foi o país com maior aumento nas compras das garrafas oriundas das tradicionais destilarias do Reino Unido, segundo a Scotch Whisky Association. Houve um crescimento substancial de 49% no primeiro semestre de 2013.

Somos o quarto país que mais compra uísque escocês, ficando atrás somente de França, Estados Unidos e Cingapura. A educação vai caindo pelas tabelas (85º lugar em 187 nações), mas o consumo de uísque no Brasil cresceu 72% desde 2008. Hoje, movimenta R$ 1,8 bilhão, de acordo com a pesquisa anual da SWA. Talvez não seja por beber tanto que estamos 85º lugar em educação, mas pode ter algo a ver com estarmos em 24º lugar no ranking da sensação de felicidade.

Na Antiguidade, no Egito, Israel e Grécia, por exemplo, a embriaguez não era essa coisa burra e doentia de hoje, “pois era vista como um ato religioso, como uma aproximação com os deuses”, segundo Tabajara Ruas em Netto perde a sua alma. E onde o uísque não entra, que venha ela, a santa cachaça de cada dia. No altar da solidariedade, que tal erguer um brinde aos nossos estressados leiteiros? 

PS.: Conheça o projeto Livrai-nos!


CONTOS DE UM BATERISTA QUALQUER -- NO RESTAURANTE

Por Lucas Henrique Schalinski


Marquei de sair com aquela mulher, aquela gata que parece ser super interessante, cabelos ondulados, formada em educação física, personal trainer, mulher top mesmo. Busquei-a em casa, e fomos num restaurante japonês no centro da cidade, e de repente eu começo a reparar que já estamos acabando de comer e até agora eu só tinha dito o meu nome, e por quê? Ela não parava de falar: sobre a rotina, sobre o cachorro de estimação, sobre a mãe injusta, sobre os clientes ricaços que ela tinha, sobre o carro que ela ia ganhar do pai dela etc. Isso fez com que ela descesse no meu conceito de mulher interessante para mulher casual, e para ser casual precisaríamos sair do restaurante para um lugar mais particular, como eu faria isso? Precisava que ela soubesse que eu toco bateria numa banda, porque nada é mais legal e excitante que tocar numa banda, pelo menos era a única coisa que vinha na minha cabeça. E para dizer isso para ela eu precisava de abertura, direcionar a conversa para um tema musical, o que era impossível, porque ela pausava no máximo 0,8s entre uma frase e outra, nunca vi ninguém falar e comer tão rápido ao mesmo tempo. Quando ela parou para tomar o primeiro gole de água da noite inteira, eu vi a única oportunidade, um pingo de suor escorreu pelo meu rosto, me bateu o desespero, eu a peguei pelos braços e gritei: “EU TOCO BATERIA NUMA BANDA, PORRA!” Ela ficou me olhando com aquela cara de assustada, todos no restaurante se viraram para ver o que estava acontecendo, e eu agindo muito naturalmente, chamo o garçom: “A conta, por favor.” Pago e vou embora deixando a mulher tagarela sentada e petrificada na mesa sem olhar pra trás nenhum momento sequer.  A partir daquele dia sempre digo que toco bateria a partir do segundo encontro.


CIDADE DAS MULHERES

Por Pedro Sarolli

La Cittá Delle Done (A Cidade das Mulheres), filme assinado por Federico Fellini em 1980, é uma viagem à fantasia erótica e ao mundo dos sonhos. Tudo começa quando protagonista da trama, Snàporaz, interpretado pelo galã italiano Marcello Mastroianni, é seduzido por uma mulher com quem divide a cabine em um trem. Eles têm um romance rápido e ele a segue na estação em que a misteriosa mulher encerra sua trajetória. A partir daí, uma miscelânea do bizarro ao fetichismo é vivenciada pelo protagonista.

Depois de persegui-la, Snàporaz chega a um hotel onde está ocorrendo um grande evento feminista. Diversas mulheres, de todos os tipos e comportamentos estão presentes, realizando atividades alusivas ao feminismo e cheias de asco aos homens. 

Ao percorrer pelos salões da hospedagem – donde não é bem vindo – ele se depara com críticas a “falodependência”; interpretações teatrais da vida da mulher após o matrimônio, cuja situação é considerada como a vivenciada em um manicômio; adulação à vagina e a seu poder; cânticos realçando a independência feminina, que não precisa do homem para nada e um forte estímulo à homossexualidade, que até hoje em dia é o caminho mais seguido pelo grupo que se denomina feminista, principalmente as mais radicais. Até treinamento para chutar o saco dos machos ele presenciou.

Depois de expulso do ambiente pela mulher que seguiu e que o ridicularizou em frente à horda, ele consegue uma carona para a estação de trem com uma mulher que o tenta “estuprar”. Ele se livra dela e consegue uma carona com um grupo de jovens mulheres, que estão sobre efeitos psicoativos. Vários carros com outras jovens na mesma situação – lembre-se que a cidade é dominada por mulheres – o aterrorizam e o perseguem até ele chegar a casa do último remanescente de uma “falocracia”: Dr. Katzone.

Katzone é um bonachão clássico e facilmente seria o rei da pornochanchada brasileira. Detentor de um bigode em linha reta sem a ligação com o nariz, roupas escandalosas e diversos objetos fálicos, Katzone ainda possuía um denso corredor com diversos rostos de mulheres que ele já havia garimpado. Ao lado de cada um, um pequeno interruptor que, se pressionado, emitia o áudio da “penetranda”. Uma espécie de suvenir erótico. Aliás, Snàporaz chegou em uma boa hora. O libertino comemorava o aniversário da sua conquista número 10 mil. Um de seus presentes era uma mulher que atrai desde moedas a pérolas para o interior de sua vagina. Um mundo bem diferente do vivenciado no hotel feminista. 

A festa e o filme começaram a mudar o rumo quando ele encontra a sua mulher, Elena, na festa. Eles se desentendem até que o protagonista recebe duas meninas de presente de boas vindas do anfitrião. O filme prossegue com uma viagem ao passado e às suas antigas experiências sexuais e a um espécie de julgamento feminino. A situação se resolve quando Snàporaz acorda no vagão do trem, com alguns indícios de que todos os episódios tinha realmente ocorrido. 

Fellini mesmo definiu a Cidade das Mulheres como quase inteiramente um sonho. Apesar do mundo da fantasia, que por diversas vezes era absurdo com pitadas reais, levando o espectador a momentos divertidos e atordoantes, a temática sonho permitiu ao diretor brincar com a realidade e desprender-se dos fatos cotidianos, misturando com tom muitas vezes sagaz e de fetichismo “os lados” da sexualidade. Ora falocrática, ora feminista radical. 

E essa temática surreal possibilitou à Fellini gargalhar na cara dos religiosos da sexualidade, em uma sátira focada muitas vezes no radicalismo, que ainda hoje é comum, principalmente no mundo feminista. 

Seduzido pela mulher no trem, Snàporaz acaba vivenciada uma experiência trágicômica